As crianças precisam de música

As crianças precisam de música

Por Wilfried Gruhn, Professor Jubilado de Educação Musica, Universidade de Música de Freiburg, Alemanha.
Artigo publicado a 6 de Outubro de 2003, no síte da ISME (International Society for Music  Education)

Do ponto de vista neurológico, os primeiros anos da infância são cruciais para o desenvolvimento de ligações sinápticas no cérebro. É o que expressa em linguagem muito simples o provérbio alemão "Was
Hänschen nicht learnt, lernt Hans nimmermehr." (O que o Joãozinho não aprende, o João não aprenderá nunca").
Contudo, não devemos sobrestimar esses primeiros anos (como referiu John Bruer no seu livro "The Myth of the First Three Years", 1999). Não é que o João deixe de aprender numa idade mais avançada. O
ser humano nunca acaba o seu processo de aprendizagem. É impossível abstermo-nos de aprender (não podemos não aprender) devido à plasticidade estrutural do cérebro. No entanto, é muito mais fácil aprender durante a flexível fase do seu desenvolvimento. Por isso, as faculdades mais importantes (tais como a posição vertical, o discurso verbal, o pensamento lógico, as operações formais abstratas etc.)
desenvolvem-se nos primeiros anos de vida.

A aprendizagem baseia-se na plasticidade do cérebro que é mais intensa nos primeiros anos, mas que continua durante toda a vida. De uma perspectiva humana, neurobiológica, educacional e ética, a
educação na infância é importante. As famílias e as pré-escolas (jardins de infância) são os primeiros e mais cruciais agentes a apresentar um ambiente rico e estimulante para a aprendizagem.
O desenvolvimento do cérebro é basicamente determinado pela sua disposição genética, mas a sua estrutura individual depende do seu uso. O cérebro desenvolve-se de acordo com o modo como o
usamos. Todas as experiências são armazenadas no cérebro e influenciam a sua estrutura neural.
Descobertas recentes em pesquisa animal demonstraram que a privação emocional e a perda de contato social têm um efeito negativo na estrutura profunda do cérebro, o que encorajou a "neurodidática" devido ao impacto óbvio dos processos neurobiológicos no ensino e na aprendizagem.
Situações tais como a hiperatividade e o síndroma de défice da atenção (ADS) referem-se a uma possível interação entre o cuidado emocional e o desenvolvimento do cérebro.
Este fato sustenta a exigência social e educacional para que se fortaleçam as famílias para os seus deveres educacionais de modo a que possam oferecer o melhor ambiente de aprendizagem possível às
crianças. As pré-escolas e as escolas só podem apoiar mas não substituir o cuidado parental. A aprendizagem da música, tal como outras aprendizagens, requer interação individual social e orientação
informal.
A música desempenha um papel importante nos primeiros anos.
De um modo muito particular, a prática musical ativa processos rítmicos. A experiência do tempo e do espaço na infância é diferente da
dos adultos.
As crianças exploram o tempo e o espaço pelo peso corporal e fluidez do movimento, enquanto que os adultos sabem contar e medir.
Assim, é óbvio e razoável que as crianças precisam de
música como um meio de repetição rítmica e movimento estruturado.
E respondem à música de uma forma muito sensata.
A música estimula o crescimento de estruturas do cérebro e liga muitas áreas cerebrais ativadas.
A prática musical requer uma ótima coordenação motora e melhora o círculo fonológico.
Não é uma questão de ser processada no hemisfério esquerdo ou direito do cérebro, porque ela promove uma forte interligação e coerência dos dois hemisférios. Como demonstra o tratamento de crianças com implantes da cóclea, a música funciona como um estímulo altamente diferenciado para o cortex auditivo subdesenvolvido.
Pesquisas sobre aptidão musical demonstraram que todo o ser humano nasce com um determinado  nível de potencial musical que detém o seu máximo grau imediatamente após o parto e não mais
ultrapassará este nível. Sem qualquer estímulo informal, o potencial musical da criança irá diminuir e finalmente desaparecer.
Por isso, é extremamente importante expor o cérebro a variados estímulos musicais de modo a que possa desenvolver representações musicais.
A janela da aprendizagem para o cérebro musical abre-se numa idade muito precoce. Os pais e educadores devem ter como objectivo
desenvolver o potencial que cada criança possui.
A aprendizagem musical começa na fase pré-natal - como referiu Kodály: A educação musical começa nove meses antes do nascimento - da mãe!) e continua informalmente depois do nascimento,
dependendo das atividades musicais dos pais.
As crianças aprendem música como aprendem a língua, isto é, não começam com gramática e teoria, mas com a prática.
Desenvolvem um "saber como" antes do "saber sobre".
O conhecimento ativo é a mais robusta representação do conhecimento musical.
A necessidade vital da música facilita a aprendizagem por abordagens práticas. Assim, a música torna-se um meio natural de expressão e de comunicação.
Face ao exposto, uma organização internacional tal como a ISME (International Society for Music Education) é extremamente importante. Partilha a responsabilidade de facultar às crianças a melhor
educação possível correspondendo às condições humanas gerais e às propriedades culturais individuais.
A troca e interação de diferentes culturas pode ser vista como o melhor meio de evitar o choque de culturas e de estabelecer uma simbiose pacífica no mundo global. As mais poderosas redes neurais e
atitudes comportamentais desenvolvem-se durante a infância. Uma aquisição geral do conhecimento do mundo envolvente (que Donata Elschenbroich chama "Weltwissen" e "Weltfahrung") governa os nossos
sentimentos e pensamentos, a nossa prática e conhecimento.
A educação musical desempenha o seu papel especial na educação das crianças. Realiza uma doutrina ética para apoiar e desenvolver um dado potencial ao máximo.