Música Barroca

Por Luiz Lobo

A música dos séculos XVII e XVIII é chamada barroca e vai até o ano de 1750, com a morte de Bach. Os teóricos da música no barroquismo citam um famoso soneto de Marino (ele também um barroco):

E del poeta il fin la meraviglia:

Chi non sa far stupir, vada alla striglia

A música tem que ser maravilhosa, grandiosa, produzir espanto no ouvinte, atacar nossos sentidos e ter muitos bordados e volutas.

O gênero musical dominante é a ópera mas, em vez das esperadas complicações polifônicas sugeridas pelas artes plásticas e pela literatura barrocas, o que se ouve é o canto do solista, a homofonia, a ária. O gênio que abre o século é Monteverde.

Se nas artes plásticas o século XVII tem Rembrandt, El Greco, Vermeer, Velazquez e Cravaggio, se a literatura nos dá Cervantes, Shakespeare, Moliére, Racine, Calderón de la Barca, a música deu poucas obras-primas de experimentadores como Monteverde, Schuetz e Purcell. A música dos Scarlatti, de Vivaldi, de Bach e Handel são do século XVIII e nada tem a ver com a do século anterior.

Numa crítica à música da Renascença, que só admitia, na música sacra e no madrigal, o canto a capela, polifônico, de várias vozes combinadas em contraponto, Orazio Vecchi (1550 - 1605), polifonista erudito, destruiu (pelo ridículo) o ideal da polifonia vocal: escreveu a peça Anfiparnasso, commedia harmonica. Na encenação da peça (de 1594) os atores, no palco, fazem apenas os gestos e ficam mudos. Seus papéis são cantados, nos bastidores, por coros de quatro e cinco vozes. O efeito é cômico e abriu o caminho para o canto homófono, individual. No mesmo ano em que foi a cena (1597) lançou-se a primeira ópera, em Florença.

A origem da ópera florentina é literária. Em torno do mecenas Bardi reuniram-se eruditos e literatos para estudar por que os poetas trágicos italianos haviam fracassado em recuperar a tragédia grega. Do debate concluiu-se que os papéis da tragédia grega eram declamados de um modo que se assemelhava ao canto.

Para conseguir o verdadeiro efeito trágico a solução florentina foi juntar os versos à música. (E, no entanto, nada se parece menos com uma tragédia de Sófocles do que uma ópera de Monteverde.)

Os primeiros libretos foram escritos pelo poeta Ottavio Rinuccini: Dafne (1597) e Eurídice (1600). A música foi de Jacopo Peri. Outro músico, o cantor Giulio Caccini, escreveu nova música para Eurídice e a diferença fundamental é que uma cuidava de musicar palavras e a outra era uma música mais trabalhadas melodicamente, procurando o significado das letras. Mas Caccini ganhou fama como o autor da Nuova Musiche, canções com a novidade de serem escritas para uma só voz.

O barroco é a vitória do indivíduo sobre o coro e é o individualismo na música.

Mas, habituados à polifonia e aos acordes vocais, os ouvidos precisavam que a voz dos solos tivesse um acompanhamento instrumental que tocasse acordes, que fornecesse as  harmonias completando continuamente os sons cantados, tocando acordes mais em baixo: estava inventado o basso continuo.

O novo gênero institui a soberania do cantor: ele é o centro e é em torno dele que se monta todo o espetáculo. O canto monódico e o baixo-contínuo são os elementos da música barroca.

Em 1681 uma grande novidade, a Ópera francesa permite a participação das mulheres no espetáculo, assumindo os papéis femininos. Até então, tanto na ópera florentina quanto veneziana ou francesa, os personagens femininos eram desempenhados por homens. A abertura das óperas passa a ser um toque forte de clarim que anuncia o começo do espetáculo.

Flautas, oboés,violinos, trombetas e tambores não são admitidos nos salões.

Na capela ficam apenas os cantores, muito raramente com o organista. Na chambre (câmara) dos palácios faz-se música com base em violinos (a "música de câmara", que só vai ser ouvida fora dos palácios no século XIX). Ao ar livre apresentam-se a Grande Escurie, um grupo de 25 músicos, todos capazes de tocar pelo menos dois instrumentos O violinista Corelli trabalha com temas de danças e canções antigas e cria o Concerto Grosso (peça instrumental que oscila entre a fuga e a suíte) para um grosso de orquestra e três ou quatro músicos solistas (concertinos).

A palavra concerto começa a ser usada, significando uma ação concertada entre os solistas e a orquestra.

Todos os grandes violinistas da época adotam a forma do Concerto para Violino e Orquestra. As peças são escritas para que o violinista possa exibir, ao máximo, seu virtuosismo e se exiba. Os tutti (todos) da orquestra são escritos apenas para dar descanso ao solista.

O primeiro compositor a escrever para um solista que não toque violino é Bach: Concerto Para cravo e Orquestra.

Surge, em 1690. um novo instrumento, com sonoridade mais aguda, chamado na França de chamelu, aperfeiçoado por Denner que lhe dá o nome de clarinete. A afinação dos cravos e teclados ganha um cromatismo temperado, igual. As sete notas da escala são somadas às cinco alterações cromáticas (sustenidos e bemóis) , formando uma escala com 12 graus iguais. A divisão matematicamente exata dessas notas mantém o valor constante de 1,0594 para o semitom diatônico natural (a distância de um si-dó, por exemplo). Uma diferença de 0,007 da antiga.

Bach, exigindo a nova afinação, escreve Das Wohltemperierte Klavier (O Cravo Bem Temperado).

O italiano Cristófori (em 1711) o Forte Piano (forte-suave, em italiano).. Ao contrário do cravo, o instrumentista controla a intensidade forte ou suave da interpretação, dependendo da força que usa nas teclas. O instrumento é Aperfeiçoado por Silbermann e fica conhecido como pianoforte, mas logo é conhecido apenas como piano, mas é rejeitado por quase todos os músicos até o final do século XVIII. Entre os maiores opositores está Bach, que se recusa a escrever para "essa monstruosidade".

No Barroco formam-se orquestras imensas mas o resultado é ruim. A orquestra barroca, em geral, tem cerca de 17 músicos. Bach usava uma formação com cinco violinos, duas vilas, dois violoncelos, dois oboés, dois fagotes, três trombones e um par de tímpanos.

Em 1749, Rameau e Gluck introduzem o clarinete na orquestra da Ópera.. No Brasil. O antigo chalumeau transforma-se na charamela, também chamada de churumela. No século XVIII, em Pernambuco, há notícia de conjuntos de músicos negro, os charameleiros. A música para instrumentos de sopro, no Nordeste brasileiro, é chamada de charanga.

As irmandades de Música são muito comuns na Bahia, em Pernambuco e em Minas Gerais. Há irmandades só de músicos pretos (São Benedito), só de mulatos (São José dos Homens Pardos) e só de brancos (Ordem do Carmo).

São uma espécie de sindicato, onde somente os sócios podem fazer música e têm a proteção dos irmãos, em todo e por tudo. Os chefes de orquestra são chamados de regentes. Bem remunerado, mora bem, é livre e mesmo os pretos são donos de escravos. Importam de Portugal tratados de música e partituras que levam ano e meio para chegar. Na Bahia e no Rio de Janeiro há bandas de negros escravos.

No fim do século XVIII surge a abertura para as óperas. A overture francesa surge com Lully , a italiana com Scarlatti, mas a primeira forma (lento - alegro - lento) prevalece, quando é adotada por alemães e ingleses.

A música barroca tem muitos nomes importantes como os luthiers mais célebres de todos os tempos, Guarnierius e Stradivárius (ambos de Cremona, na Itália), o teórico Giovanni Maria Bononcini (autor de Il Musico Práttico, o homem que mudou o nome da nota musical ut para dó), os compositores Carissimi (autor de 15 Oratórios que dão um caráter definitivo ao gênero), Lully (introdutor do balé na Ópera francesa), Corelli (autor de 48 Sonatas para dois Violinos e Contínuo e criador de uma escola para instrumentos de arco), Purcell  (o criador da ópera inglesa), Couperin (autor de L'art de toucher le clavecin e primeiro instrumentista de teclado a usar o polegar, uma inovação revolucionária), Albinone (o autor de Ópera Séria), Juan Bautista Bononcini (rival de Handel que trocou a viola de gambá na orquestra pelo violoncelo, dando importância a esse novo instrumento), Vivaldi (a grande admiração de Bach, 10 anos mais moço, que reescreve seus Concerti Grossi para órgão), Telemann (autor de 40 Óperas, 100 Suítes, 44 Paixões), Rameau (autor do Tratado de Harmonia Reduzida a seus Princípios Naturais), John Gay (autor da Ópera do Mendigo), Scarlatti (que, aos 24 anos, mesma idade de Händel, disputa com ele uma competição promovida pelo Cardeal Ottoboni. Handel vence no órgão e Scarlatti no cravo), Handel, alemão, naturalizado ingês, dono do Covent Garden, a mais importante sala de concertos da época, um dos autores mais férteis do barroco) e, naturalmente, Bach (descendente de uma família com 120 músicos, o último grande músico barroco).

No Brasil o maior autor barroco é Antonio José da Silva, o Judeu (que escreveu comédias de costumes e morreu degolado, tendo o corpo queimado pela Inquisição, acusado de divulgar o lundu, "música erótica trazida da África").


Fonte: www.tvebrasil.com.br/agrandemusica