Mozart: alguns tópicos interessantes.

1) Em interessantísima carta inédita datada de 12 de outubro de 1790, "Mozart, der Goettlich", (Mozart, o divino), como o cognominava Beethoven, a pedido de um amigo, nos inicia no segredo do processo com que se elaboravam no seu cérebro as idéias musicais.
"Como é que eu trabalho e como executo grandes composições musicais ? Não posso em realidade dizer-lhe senão isto: quando me sinto bem disposto, seja em carruagem quando viajo, seja de noite quando durmo acodem-me as idéias aos jorros, soberbamente. Como e donde, não sei. As que me agradam, guardo-as como se me tivessem sido trazidas por outras pessoas, retenho-as bem na memória e, uma após outra, delas tomo a parte necessária para fazer um pastel segundo as regras do contraponto, da harmonia, dos instrumentos, etc. Então, quando estou em profundo sossêgo, sinto aquilo crescer, crescer para a claridade de tal forma, que a obra mesmo extensa se completa na minha cabeça e posso abrangê-la num só relance, como um belo retrato ou uma bela mulher, e isso não parte por parte, mas de uma só vez. Achar aquilo e realizá-lo é um sonho soberbo _ que se desenvolve dentro de mim. Quando chego a esse ponto, nada mais esqueço, porque a memória é o melhor dom que Deus me deu." (...)

2) E o que será que Mozart achava do Brasil? Ou pelo menos da madeira do nosso país? O que se sabe é que ele elogiava a madeira brasileira que chegava na Áustria para a fabricação de arcos para instrumentos de corda, vinda de Pernambuco. Em uma carta ao pai, ele diz:
"(...) O senhor deveria ouvir o que este arco de Lahoussayse pode fazer —
sutis nuanças que eu nunca ouvi antes! A haste é feita de uma madeira vinda
de Pernambuco, no Brasil, que é forte e flexível — elástica como o cabo de
um bom chicote. (...)"

3) Quando deixou a casa do arcebiso, em Salzburgo, Mozart teve vários oferecimentos de amigos, como Mesmer (e não aceitou este último pelo fato de estar hospedando o compositor Righini, seu rival), bem como de Aurnhammer, cuja filha era a mais notável pianista de Viena e apaixonou-se pelo jovem artista.  
Era feia e obesa - "um verdadeiro monstro", segundo a expressão de Mozart, que preferiu perder a discípula e apaixonada, buscando  então o pequeno apartamento ocupado pela família Weber em Petersplatz n.11.

4) A Flauta Mágica - tem uma história curiosa. Mozart compô-la para auxiliar Schikaneder, empresário e ator ambulante que falira em vários teatros, no interior. Mozart, cheio de compaixão pelo amigo pobre, aceitou, dizendo:  
Se eu não me sair bem, meu pobre Schikaneder, se a obra não lograr sucesso, perdoe-me. Nunca escrevi 'feeries". O teatro a que se destinavam era um teatro de feira...
 
5) A verdadeira qualificação da obra-prima da música, a ópera Don Giovanni,  não é de <ópera bufa>, que Mozart deu no seu catálogo, nem <drama giocoso>, como qualifica Lorenzo da Ponte; mas se a expressão exisitisse naquela época, <Don Giovanni> poderia ser pomposamente intitulado  - a primeira ópera romântica.

6) Beethoven tinha grande preferência pela <Zauberflöte> (A Flauta Mágica), achando que nela Mozart se demonstrara um verdadeiro alemão.

7) Mozart ingressou na Maçonaria em dezembro de 1784. Ele, de certa forma, sentia-se maravilhado com esta entidade, já que passava por dificuldades e buscava auxílio e consolo em algo que lhe agradasse. No período que ingressou até os seus dias finais, forneceu música para as cerimônias em Loja, cerimônias públicas e solenes. Destacamos entre elas a cantata "Dir, Seele des Weltalls", composta em 1783 quando tinha 27 anos e outras cantatas, como "Die ihr des unermesslichen Weltalls" e "Laut Verkünde unsre Freude", quando já estava doente e compondo a ópera "A Flauta Mágica".

8) Nas últimas semanas de vida, informava-se constantemente das representações da Flauta Mágica. Pedia o relógio e seguia mentalmente a representação. Poucas horas antes de sua morte, disse a Constança: "Desejaria tanto ouvir pela última vez minha ópera! " E pôs-se com esforço a cantar a ária de Papageno: <o caçador de pássaros>. Alguém presente sentou-se ao piano e executou a música... Reanimado pela recordação, pediu a partitura do Réquiem e os amigos se ofereceram para cantar algumas páginas - "Não lhes dizia que esse Réquiem seria meu canto de morte ?" Ouviu alguns instantes mais... Depois, quando vozes amigas começaram a Lacrymosa, sua cabeça se inclinou, vieram as lágrimas e ele deixou cair a partitura que conservava nas mãos...

9) Mozart possuía uma memória de dar inveja a qualquer músico. Como o filme "Amadeus" relata, ele era capaz de ler uma partitura, decorá-la e em seguida executá-la no instrumento que fosse sem a necessidade da mesma estar na sua frente. Sobre assuntos verídicos, certa vez em Roma, Mozart aos 14 anos, foi assistir à uma peça religiosa "Miserere para coro duplo" de um compositor italiano chamado Gregório Allegri, que viveu entre 1500 e 1600. Essa música, além de muito difícil, de intrincadíssima polifonia e coro duplo, não poderia ser reproduzida, alterada ou até mesmo, ninguém poderia ter em mãos a partitura, que além de ser propriedade da Capela Sistina, era protegida sob ameaça de excomunhão. Após o concerto, Mozart tendo-o ouvido uma única vez, transcreveu-o de memória, e ao chegar em sua casa,  transcreveu a música no papel com todas as notas e vozes iguais a original.

10) Mozart adorava jogar bilhar. De acordo com o filme Amadeus, sua mesa de bilhar ficava ao lado do piano e serviu várias vezes de "mesa de composições", como qualquer lugar que ele encontrasse para repousar sua pena e sua folha pautada. Gostava também da esgrima, da dança, de montar cavalos e de animais de estimação. Mozart tinha um canário, que na época era uma ave de estimação muito comum na Áustria, além de cães.

11) A autenticidade integral do Réquiem deu lugar a sérias polêmicas e controvérsias na Alemanha, tendo afinal ficado mais ou menos assentado que o Requiem e o Kyrie são completamente de Mozart — Quanto ao Dies Irae, até as palavras <qua resurget ex favila> foi começado por Mozart, segundo seu processo de sempre: escreveu completamente a parte vocal e o baixo cifrado indicando de forma sumária os compassos de entrada. Restavam por fazer o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei e a Lux Perpetua. Süssmayr aproveitou-se dos rascunhos do mestre e completou a instrumentação a pedido da esposa de Mozart, a fim de entregar a obra que fôra paga adiantadamente. — Segundo os críticos, o Agnus Dei é tão perfeito que só pode ser inteiramente obra do mestre: <Se realmente Mozart não compôs esse trecho, quem o fêz é um segundo Mozart>, disse Marx, o grande crítico.

12) Sobre sua morte.
A morte repentina de Mozart imediatamente deu origem a todo tipo de especulações sobre sua causa real e em pouco tempo começaram a surgir boatos so bre o envenenamento. Pouco depois do Ano Novo de 1791, um jornal de Berlim publicou a seguinte notícia;
Mozart está — morto. Voltou de Praga sentindo-se doente;
pensaram que tivesse contraído hidropsia e ele morreu em iena. Por ter seu corpo inchado após a morte, diversas pessoas acharam que ele tivesse sido envenenado...
O filho de Mozart, Carl Thomas, achou a inchação do cadáver do pai estranha, senão suspeita, embora suas referências sobre um envenenamento foram bastante oblíquas. Contudo, com a passagem do tempo a teoria do envenenamento foi esquecida. Constanze nunca pareceu dar muito crédito a esses boatos, embora citasse que o próprio Mozart acreditava nisso (vide as conversas que manteve com os Novello). Porém em 1820, um acontecimento dramático reabriu a teoria sobre o envenenamento de uma forma particularmente grotesca, vindo a formar base para a já legendária peça de Peter Shaffer, Amadeus, cujo protagonista não é Mozart e sim Antonio Salieri.

13) De acordo com uma lenda romântica, no dia do enterro de Mozart, caía uma grande tempestade sobre Viena, o que dificultou a ida de muitos amigos e pessoas residentes na cidade ao cemitério. Hoje, segundo testemunhas, o fato mais aceitável é que no dia do seu enterro o tempo estava claro e tranqüilo. O que se sabe é que o seu corpo foi levado pelos coveiros para vala, saindo da cidade para o subúrbio de São Marcos, cujo corpo foi seguido apenas pelo cão "Pimperl", que fora do compositor.

14) Ludiwg Van Beethoven, compositor alemão que viveu entre períodos da vida de Mozart, tinha verdadeira admiração pelo mestre da música, apesar de conhecê-lo rapidamente, no encontro que tivera com ela aos 17 anos para ter aulas com Wolfgang para aprimorar seus conhecimentos em leitura e composiçõa, mas além de Mozart estar atarefado e acabara de perder o pai, Beethoven foi chamado de volta para a Alemanha por motivo de doença familiar. Por vezes, executava seus concertos para piano, principalmente o nº 20 (K-466), para o qual compôs algumas cadências.

15) Um médico sueco acha música de Mozart tão agradável que costuma utilizar o movimento lento do Concerto nº 21 para piano na sala de parto, para facilitar o trabalho das parturientes!

16) Recentemente, pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, descobriram que até os animais mudam seu comportamento quando estimulados por música.
Os cientistas embalaram ratinhos de laboratório ao som da Sonata para Piano K. 448, de Mozart, e os submeteram a experiências em um labirinto. Os camundongos fizeram o caminho em menor tempo do que dois outros grupos que ouviram o som minimalista de Philip Glass ou que dormiram em silêncio. A experiência comprovou em animais o chamado efeito Mozart - o aumento da capacidade de raciocínio e da noção espacial após ouvir a música do compositor do século XVIII -, descoberto pelos mesmos pesquisadores anos atrás. "A música de Mozart é tão sinfônica que suas melodias são agradáveis ao ouvido de todos", explica Maristela.
Fonte: Revista Época - 24/08/98

17) Ouvir música cria conexões entre células do cérebro e afeta a capacidade cognitiva
Verdade: Está provado que ouvir música estimula áreas do córtex cerebral. Pesquisas como o efeito Mozart mostraram que essa estimulação neural cria uma complexa rede de associações similar à dos processos de aprendizagem e raciocínio
Fonte: Revista Época - 24/08/98

18) E essa é uma carta que Mozart escreveu para seu pai:
Paris, le 26 mars de 1778
Mon très cher Père!
Chegamos a Paris, graças a Deus, três dias atrás, às quatro horas da tarde. O senhor não pode imaginar o tédio da viagem. Estava claro e álgido nos oito primeiros dias na estrada, mas nos últimos dois choveu e ventou do mesmo modo que Punto assopra sua trompa: foomala-foom-foom! Pensei que as janelas da carruagem iriam quebrar ao ouvir tal música. Mamãe e eu permanecemos sentados, encharcados, dentro da carruagem. E ninguém para dizer sequer uma palavra! Durante nove dias e meio! As horas estavam suspensas. Je m'ennuyais à mourir.
Estamos agora num quarto com duas camas, na casa de um ferrageiro, Herr Mayer, na rua Bourg l'Abbé. Aqui, mamãe pode falar alemão, embora o quarto seja tão escuro que ela mal consegue enxergar para fazer seu tricô. Não há lugar algum para um piano, de modo que me sinto sufocado nessas acomodações. Madame d'Épinay está procurando aposentos melhores para nós.

Meu querido papá, tenho um pedido a lhe fazer. Por favor, demonstre mais alegria em suas cartas. Não precisa mais preocupar-se tanto assim comigo! Estou em Paris, onde qualquer coisa com duas pernas e uma cabeça que não se desprenda dos ombros pode fazer uma fortuna! O barão Grimm me diz que, se eu escrever duas ou três óperas, poderei então ter a garantia de um provento. Posso ter alunas, queridas menininhas, ao preço costumeiro de três louis d'or por doze aulas. Pagam a um compositor cinco louis d'or por uma sinfonia escrita para o Concert Spirituel, a instituição - lembra-se, papá ? - que tem a permissão do rei para dar concertos nos dias santificados, quando o Ópera está fechado.
É verdade que a viagem foi cara. Carruagem, alimentação, alojamento e gorjetas custaram-nos mais de quatro louis d'or. Agora mesmo estamos um tanto apertados. O senhor não pode imaginar quanto custa a comida na França. Eu escrevi comida ? O senhor estava certo, papá. Enguias ensopadas! Coelho engordurado! Sopa com tanto alho que a tigela levita da mesa e paira sobre a altura do seu queixo.

Com a ajuda do barão Grimm, já fiz um acordo com o Concert Spirituel. Eles querem que eu componha alguns coros para um miserere para a próxima quarta feira! Logo fiz amizade com o primeiro violino, Lahoussaye. Acredite ou não, ele é ainda menor que eu - um violinista pequenino, alegre como um garnisé. Mesmo sendo francês, somos capazesde rir juntos o tempo todo. Ele me oferece almoços gratuitos nos seus aposentos e vai me deixar usar seu piano para compor. Ele têm dois violinos esplêndidos. A maior parte do tempo toca um instrumento que possui há muitos anos, fabricado por Jakob Stainer, mas comprou um recentemente, um fabricado há várias décadas por um luthier italiano de nome Stradivarius, que, diz ele, tem um tom obsedante, embora prefira o seu familiar Stainer.

Fique contente, querido pai! O senhor sabe que eu o amo e quero, acima de tudo neste mundo, agradá-lo. Escreva-me sobre a querida Bimperl. Ela diz -  "au-au-au" - que sente a minha falta ? Ela rosna para minha irmã Nannerl ? Por favor, não a deixe pegar hidrofobia! Eu rosnarei e o morderei se deixar!
Envio-lhe dez mil beijos.
Seu fiel filho,
Wolfgang Amadé Mozart